sábado, 12 de janeiro de 2013


Apetece-te melancia minha pequena ?

Nesse turbilhão de informações, pessoas, fazeres, é bem difícil  a gente parar para pensar um pouco como a gente conhece nossos amigos ou não amigos; ademais, não se pode duvidar de que eles fazem parte do nosso passado, do instante presente, ou até mesmo, diga-se de passagem, da vontade de rememorá-los quando se tem uma falta. Melancolia? Tristeza? Não, isso se chama Saudade!
Quem sabe: Vozes que soam ao sabor de um instante, um momento em que não se pudesse, a priori, parar para pensar um minuto que seja, mas basta se sentir sozinho que as lembranças tornam a vir. Será que sempre somos os mesmos quando estamos vivendo o presente? O passado poderia sempre ocupá-lo?
Minhas memórias sabem. Queria sempre que elas soubessem! Mas não sabem porque vem do nada, vozes que se metem no interior alheio de sua consciência ao sabor do instante. É uma eterna relação de amor que elas me proporcionam.. É tão confortante pensá-las, mas é dolorido esquecê-las:
 - Apetece-te melancia menina?
- Sim! Quem é esse quadro vovó? ( um olhar profundo, atento)
- Não sei! Gostou? ( seus olhos já não veem muito bem, mas sentem o cheiro)
- Sim vó, quando crescer quero ser igual a ela.
-Dou-ta como recordação Thaysa! Uma dia você vai lembrar de min minha criança!

E a menina sempre com um ar encantado. Não saberia até então o quanto sua avó era importante para ela. Às vezes os mortos ficam bem onde estão, tornam-se dignos de chamá-los, pelo menos enquanto a gente ainda está vivo. Está bem vó? Vó, não me houve? Ela sempre sentada no canto dela a olhá-la como que algo a acontecer e nada de acontecimentos.
A menina queria que ela fosse adulta para ser igual ao quadro com aquela dama de branco. Vó, não me ouve? Estou aqui. Quem é aquela mulher? Há sempre alguma maneira de lembrar os nossos avós. Mas ela, a menina, sempre quieta em seu lugar, não entendia o porquê de sua avó ser sempre quieta a estar consigo mesma:
Mãe: não se preocupe Thaysa, ela está só descansando.
Apetece-te melância menina?
Menina: ela nunca brinca ou me ouve  mãe!! ( incompreendida)
Apetece-te melancia menina?
Vozes que iam e sumiam na Thaysa!! Que estranho isso!! Um aperto no coração invade as sensações de Thaysa. Vó!!!Vó!!!! Ela não sabe, mas sua avó não está aqui, está em um lugar em que ela apenas saberá quando sentir sua falta. Que coisa? Estou aqui Thaysa, não me vês? A avó do lado da menina que está dormindo, mas não sabe que vozes são aquelas. A menina e não menina, visto que Thaysa já se casou, está em paz consigo mesmo dormindo mais uma vez.
Vem por aqui minha neta!! Não se esqueça de min! Thaysa, lembra do quadro?!! E nada de vozes no quarto de Thaysa porque não havia vozes, lembra do quadro? .... imagens que se formavam e não se formavam, assim é a nosso sentimento quando estamos sozinho. Mundo e não mundo. O que interessa-me é apenas sua imagem vó! me dá um abraço!!

Apetece-te melancia Thaysa?
Vó, por que não me ouves?
Gostou dela?
Apenas imagens; e a pequena menina, com sua saia com renda, como aquelas crianças que gostam de dançar com o lenço de chita na cabeça a mostrar sua felicidade para sua mãe, sempre se imagina no quadro da avó. Queria que aquela imagem fosse a sua, a da sua avó:
- É para você minha pequenaThaysa
E a menina não sabia o porquê do presente. Nunca sabemos o quanto nossos parentes que estão vivos e não vivos são importantes em nossas vidas. Nossa menina não sabe disso. Que estranho esse conto, por que essas memórias agora? onde estou? Que sentimento estranho. Cadê você Thaysa? Tu me ouves?  Thaysa ainda não sabe, mas sua avó já faleceu, ou como diria um narrador de Machado de Assis: de Machado de Assis? ...  ela já estudou a geologia dos mortos! .. Mas nossa menina Thaysa  ainda se lembra dela ...  Por que ela não me vê?
No sonho:

- É você no quadro vóvó? ( com o ar de curiosidade que toda criança tem)
................
Tu me ouves Vó?

Thaysa não sabe, mas sempre quis ter a avó do lado que a ouvisse nos momentos de insegurança, de solidão, mas não sabe que sua avó ......
- Mãe, sinto falta da avó
- Eu sei minha garotinha, ela vai voltar!
- Sente muita minha filha querida ( a mãe tentando segurar as lágrimas)?
- Sim, ela é especial, mãe. Acho que sinto ela quando estou dormindo!
- Então sempre durma Thaysa! Ela sempre está com você minha garotinha

Nossa pequena Thaysa fez a ela um pequeno quadro que se chama Menina do Aquário. Essa pequena não teve tempo de entregá-la a avó! Estou aqui Thaysa, não me vês?  Pensamentos que vinham e sumiam:
- Apetece-te uvas Vovó?
- Sim minha pequena neta,  perdoe a tua avó; um dia você irá compreender-me!
- Gostou desse quadro vó? Se chama menina do áquario
- É para mim, minha neta?
- Sim, dou-ta como recordação vovó .. um dia  quero ser igual a senhora. Amo-te

Nossa pequena Thaysa Minha pequena, não me ouves? estou aqui? Amo-te ....

Sentir a presença da avó era tudo que a nossa pequena queria sentir. Quem mal tem em aludirmos nossos mortos aos nossos pensamentos?. Que estranho isso: Tê-los e não poder tocá-los, não poder abraçá-los; ir com eles onde quer que eles estejam. A pequena não sabe dessas coisas: a de que a vida é muito pequena para se ter mágoas ou tristezas. Cada um de nós tem os nossos mortos e as nossas lembranças. Thaysa tem uma: o quadro da dama que é a avó:
- Apetece-te melancia menina?
- Sim! Quem é esse quadro Thaysa ( um olhar profundo, atento)
- Não sei! Gostou? ( seus olhos já não veem muito bem, mas sentem o cheiro)
- Sim minha pequena, quando crescer quero ser igual a você, minha pequena
-Dou-ta como recordação Vovó! Uma dia você vai lembrar de min minha criança!

E a nossa pequena Thaysa dormindo no mesmo quarto da avó ... imagens que iam e vinham, mesclavam-se aos pensamentos da avó, em um mundo qualquer, um lugar no qual todos pudessem dizer o que sentiam pelo seu ente querido. Que se foi. Nossa pequena Thaysa não tem idade para pensar o nosso destino, mas tem uma pequena frase que ela não esquece.
Apetece-te uvas Vovó?
Suas lembranças nunca se perderam; estão sempre aí em alguma lugar. Estão!. E isso basta para nossa pequena. Pequena? Também não sei. Não tive avó, mas tenho uma amiga, ela se chama Thaysa Audujas que, um dia, ao estar numa fila da copiadora, viu um menino que se chama Anderson e disse:
- Anderson?
- Oi Thaysa! Tudo bem, você vai pegar os textos?
- Sim vou, você poderia pegar para min também?
-Claro, me dá o dinheiro; fico na fila para você
- Posso ir até o café para trocá-lo?
- Sim, claro
Disso o nosso personagem Anderson nunca se esqueceu. Ele ainda não tinha percebido que sua amiga seria sua amiga. Assim como nossa pequena Thaysa nunca se esqueceu do quadro da avó. Quem sabe um dia o nosso amigo Anderson e a pequena Thaysa não se encontram para falar:
- Apetece-te minha história Thaysa
- Claro, seu bobo! Tem pancada? É giro?
- Sim chérrie!!, gosta de cherrié ou honey?
- Não sei, gosto de você menino! Gracias !E do que se trata a história?
- Nem sei, fi-lo pensando em alguém, não sei! Sei que um dia não pude ter a mesma sorte, mas tua lembrança sim. Aliás, dê valor as suas lembranças. Elas te mantém viva e te deixam mais feliz.
Apetece-te uvas Thaysa?
-Sim, sim!
-Então comemos juntos!!rs
- vamos à aula que já estamos atrasados!! Parece que te conheço há tanto tempo!Sei lá, são sentimentos.. que vão e voltam de novo ....
E assim se foram as memórias ...